quinta-feira, 11 de junho de 2015

ABC de poemas letra E

Ode à Amizade

Se depois do infortúnio de nascermos
Escravos da Doença e dos Pesares
Alvos de Invejas, alvos de Calúnias
    Mostrando-nos a campa
A cada passo aberta o Mar e a Terra;
Um raio despedido, fuzilando
Terror e morte, no rasgar das nuvens
    O tenebroso seio
A Divina Amizade não viera
Com piedosa mão limpar o pranto,
Embotar com dulcíssono conforto
    As lanças da Amargura;
O Sábio espedaçara os nós da vida
Mal que a Razão no espelho da Experiência
Lhe apontasse apinhados inimigos
    C'o as cruas mãos armadas;
Terna Amizade, em teu altar tranquilo
Ponho — por que hoje, e sempre arda perene
O vago coração, ludíbrio e jogo
    Do zombador Tirano.
Amor me deu a vida: a vida enjeito,
Se a Amizade a não doura, a não afaga;
Se com mais fortes nós, que a Natureza,
    Lhe não ata os instantes.
Que só ditosos são na aberta liça
Dois mortais, que nos braços da Amizade,
Estreitos se unem, bebem de teu seio
    Nectárea valentia.
Tu cerceias o mal, o bem dilatas,
E as almas que cultivas cuidadosa,
Com teu suave alento aformosentam-se
    Medradas e viçosas.
Caia a Desgraça, mais que o raio aguda
Rebente sobre a fronte ao mal votada,
Mais lenta é a queda, menos cala o golpe
    No manto da Amizade:
E se desce o Prazer, com ledo rosto
A alumiar o peito de Filinto,
A chama sobe, e vai prender seu lume
    Na alma do fido Amigo.

Filinto Elísio, in "Odes"

sexta-feira, 5 de junho de 2015

ABC de poemas: a letra C esquecida

O Poema

O poema não é o canto 
que do grilo para a rosa cresce. 
O poema é o grilo 
é a rosa 
e é aquilo que cresce. 

É o pensamento que exclui 
uma determinação 
na fonte donde ele flui 
e naquilo que descreve. 
O poema é o que no homem 
para lá do homem se atreve. 

Os acontecimentos são pedras 
e a poesia transcendê-las 
na já longínqua noção 
de descrevê-las. 

E essa própria noção é só 
uma saudade que se desvanece 
na poesia. Pura intenção 
de cantar o que não conhece. 

Natália Correia, in "Poemas (1955)"

quarta-feira, 3 de junho de 2015

ABC dos poemas (Letra D)

Ai Flores do Verde Pino


__ Ai flores, ai flores do verde pino, 
se sabedes novas do meu amigo! 
    Ai Deus, e u é? 

__ Ai flores, ai flores do verde ramo, 
se sabedes novas do meu amado! 
    Ai Deus, e u é? 

Se sabedes novas do meu amigo, 
aquel que mentiu do que pôs comigo! 
    Ai Deus, e u é? 

Se sabedes novas do meu amado, 
aquel que mentiu do qui mi á jurado! 
    Ai Deus, e u é? 

__ Vós me perguntardes polo voss'amigo, 
e eu bem vos digo que é san'vivo. 
    Ai Deus, e u é? 

Vós me perguntardes polo voss'amado, 
e eu bem vos digo que é viv'e sano. 
    Ai Deus, e u é? 

E eu bem vos digo que é san'vivo 
e seera vosc'ant'o prazo saído. 
    Ai Deus, e u é? 

E eu bem vos digo que é viv' e sano 
e seera vosc'ant'o prazo passado 
    Ai Deus, e u é? 

D. Dinis, in 'Antologia Poética'

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Proposta poema II

Uma ponte, duas margens,
Um abraço, muitas viagens.

A ponte é um abraço,
Aproximando amigos.
A ponte é um traço,
Atando margens.

Construímos uma ponte,
Atando duas margens.
Lançamos um abraço,
Definindo mil viagens.
Desenhamos um traço,
Transpomos um monte.

Nós, ignorantes, partimos
Rumo à outra margem.
A cada passo, descobrimos
O sentido da viagem.
Aprendemos que aprender
É uma ponte que construímos.

As viagens que desenhamos
São pontes entre lugares,
Lançando longos abraços
Que ultrapassam mares.
Nos mapas são traços
Por onde vamos.

Na viagem aprendemos:
Viver é um longo caminhar.
A cada milha que percorremos,
Sentimos vontade de continuar,
Inquietos, compreendemos
Que o caminho está a iniciar.


MA 61

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Proposta de poema I

Deram-lhe o mar
Esqueceram-se de o ensinar
A navegar.

Deram-lhe o céu
Esqueceram-se de construir
Asas para voar.

Deram-lhe um mapa
Esqueceram-se da bússola
Para o orientar.

As palavras invadiram os seus dias,
Cada letra parecia-se com o demo.
O alfabeto era um país afastado,
Sentia-se perdido,
Onde nunca tinha estado.


MA 61

quarta-feira, 11 de março de 2015

Projeto “O livro da minha vida”

O Projeto é um desafio, mais uma vez, que lançamos todos membros da Comunidade Educativa da Escola Secundária de Camarate: de alunos a docente.

Escreve um pequeno texto sobre um livro que tenhas gostado, nós divulgaremos no blogue “O físico prodigioso”.


Entrega o teu texto na Biblioteca Escolar ou envia o teu texto para bibliocamarate@gmail.com.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dia 8 de Março: ler as poetisas portuguesas

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"