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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

ABC V de Cesário Verde

Contrariedades
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'  em http://www.citador.pt/poemas/contrariedades-cesario-verde

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

FEIRA DO LIVRO 9, 10 e 11 MARÇO

Visita!
9, 10 e 11 março
Feira do Livro

Escola Secundária de Camarate

Ler mais para ler melhor!
PROGRAMA
9 de março, 14:00 - 18:00
10 de março, 10:00 – 13:30/14:20-16:10

11 de março, 10:00 – 13:30/14:20-15:25

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Torga de T do ABC de poemas

Ariane
Ariane é um navio. 
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Sobre Jorge de Sena: poeta da letra S do ABC dos poemas

"A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov)."


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Letra Q com Natal à mistura: "Prece do Natal"/Carlos Queirós

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.

Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»…

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

A mais insofrida
De tantas misérias
– Não termos mais férias
Ao longo da vida –

Trocai por amenas
Manhãs sem cuidados,
Silêncios banhados
De ideias serenas;

Por cantos e flores
Risonhas imagens
Macias paisagens
Felizes amores!


Carlos Queirós, in 'Antologia Poética'

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Manhã de Inverno/Machado de Assis


Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena. 

Machado de Assis, in 'Falenas' 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Fernando Pessoa e...

"Heterónimos
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são os heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, mas o poeta tinha muitos mais. Afinal, quantos eram?"

"Figura singular da poesia portuguesa, Florbela Espanca traduziu em versos a vida infeliz que teve e que decidiu terminar no dia do 36.º aniversário. A sua obra contém alguns dos mais belos sonetos de sempre, como estes que dedicou a amigas e discípulas."


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

"A Poesia Vai Acabar" ABC...p


A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?»    E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? — 

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde" 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ler Mais Ler Melhor Vida e Obra de Alexandre O'Neill (vídeo)


ABC ... O

Aos Vindouros, se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas 
a ver trabalhar a cibernética, 
que não deixais o átomo a desoras 
na gandaia, pois tendes uma ética; 

que do amor sabeis o ponto e a vírgula 
e vos engalfinhais livres de medo, 
sem peçários, calendários, Pílula, 
jaculatórias fora, tarde ou cedo; 

computai, computai a nossa falha 
sem perfurar demais vossa memória, 
que nós fomos pràqui uma gentalha 
a fazer passamanes com a história; 

que nós fomos (fatal necessidade!) 
quadrúmanos da vossa humanidade. 

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço

Vincius de Moraes lê Pablo Neruda


terça-feira, 10 de novembro de 2015

ABC ...N de Neruda

Não Me Sinto Mudar


Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'
Tradução de Albano Martins

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Vinicius de Moraes (ABC...M)


ABC...M(oraes)




Mar











Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Biografia de Frederico Garcia Lorca (ABC letra L)

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A vida e obra de García Lorca pelo que foram e são adquiriram uma grandeza mítica com o poeta ainda vivo, dimensão que aumentou com a sua morte prematura e trágica, a Guerra Civil espanhola de 1936-1939, o silenciamento que o poder franquista impôs à sua obra, à sua ida, à sua morte.
Hoje, passados, mais de 60 anos sobre a madrugada de Agosto de 1936 em que o poeta se tornou um dos símbolos da Espanha martirizada, investigada a sua vida e sujeita a notáveis esforços de revisão textual a sua obra, podemos ter do poeta uma imagem desmistificada, em que ele deixou de ser alguém puramente mágico e o poeta os ciganos, para ser visto como um homem perturbado pelas suas inquietações íntimas e anseios artísticos múltiplos, consciente dos meios que procurava para a obra que escreveu com febril entusiasmo e domínio total os elementos que empregava, que fizeram dele um dos maiores escritores espanhóis do século XX. A sua obra desvenda alguém com o coração ferido, dominado sempre por agouros e ameaças de morte, para quem o amor raramente é plenitude, sendo um espaço desolado e sombrio.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Prémio Nobel da Literatura 2015

A prémio Nobel da Literatura 2015, Svetlana Alexievitch, definiu hoje o regime da Bielorrússia como uma "ditadura suave" na véspera das eleições presidenciais no seu país, dirigido há 21 anos pelo Presidente Alexander Lukashenko.

ler mais em: 
http://www.tsf.pt/internacional/interior/nobel_da_literatura_diz_que_bielorrussia_vive_uma_ditadura_suave__4827818.html

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Formar Leitores para Ler o Mundo: depoimentos na Casa da Leitura



“No âmbito do Congresso Internacional de Promoção da Leitura, o projecto Gulbenkian Casa da Leitura decidiu lançar um amplo debate junto de especialistas portugueses, brasileiros e espanhóis, a propósito do seu tema central: «Formar Leitores para Ler o Mundo». Convocámos leitores, escritores, promotores de leitura, professores, ilustradores, bibliotecários, investigadores, mas também fotógrafos, cientistas, leitores, editores e livreiros, quebrando deste modo as barreiras físicas da conferência, lançando o debate antes mesmo do início da conferência.
Ler mais em http://magnetesrvk.no-ip.org/casadaleitura/portalbeta/bo/documentos/depoimentos2.pdf